09 maio, 2018

Ellie Ford

Ellie Ford partilhou carro com os Time for T a caminho de Viseu. Para a noite estava planeado tocar algumas músicas com o grupo e abrir o concerto. Nós decidimos focar-nos no seu trabalho a solo.

A britânica tem conseguido fãs espalhados um pouco por toda a Europa, para isso têm contribuído algumas digressões, sobretudo em Inglaterra e Alemanha, já em Portugal, esta foi a sua primeira visita. Com o dia cinzento e chuvoso, quisemos abrigar-nos dos maus tratos do frio e encontrámos no Bazar Litos o refúgio perfeito. Esta loja de brinquedos habitua a Rua Direita há várias décadas e é feita da matéria dos sonhos de criança. Coberta de brinquedos, alguns deles já muito difíceis de encontrar habitualmente, é impossível não libertar um sorriso ao entrar naquele espaço e deixar que reminiscências da infância nos aqueçam o peito. Ellie sorriu, nós sorrimos também. Possivelmente pelos mesmos motivos, mas quem sabe.

Agasalhados, só havia que preparar o palco e os instrumentos. O palco não temos, basta um bom enquadramento, já instrumentos esses havia-os. A cantautora é conhecida pelos seus dotes na harpa, piano e guitarra, mas destes três só o último se traz facilmente às costas. Guitarra que seja, afinou-se durante alguns segundos, não muitos. A voz também pouco precisou para aquecer. Há quem descreva a voz de Ellie como sendo tão doce quanto mel. Talvez essas propriedades a mantenham protegida das intepéries. Mesmo nos murmúrios da canção por vir a sua voz trazia um brilho especial àquele momento. Estávamos prestes a começar. O resto conta-se em vídeo, mas nem tudo.

Depois das canções, ainda enfadados pelas cantigas e pela magia do que nos envolvia, chamou a nossa atenção um acordeão. Ora, não era nenhum acordeão profissional, era daqueles bem pequeninos, de brincar - muito coloridos-, mas que surpreendentemente soltavam várias notas a nosso comando e, tanto quanto o ouvido podia decifrar, afinadas! Trouxemo-lo connosco. Foi um presente do Musiquim que, tanto quanto sabemos, vai tendo o seu uso. Quem sabe não o escutaremos nunca canção futura. Por agora, as duas com que Ellie Ford nos deixou "My Bird Won't Sing" e "The Only One" fazem parte do seu seu álbum de estreia "The Other Sun". Mais sobre a artista na sua página oficial.


28 março, 2018

Time for T

​Foi a primeira vez que Tiago Saga, o coração dos Time for T, esteve em Viseu. A cidade não estava recetiva a visitantes e para o luso-britânico que cresceu no Algarve o frio e a chuva não foram de todo simpáticos.

No carro já velho e totalmente atulhado de instrumentos acompanhavam-no Joshua Tayler (baixista), Felipe Bastos (percussão) e Ellie Ford (sobre esta britânica falaremos noutro capítulo). Embora um bom companheiro de viagem, estacionar o automóvel foi um problema. É que o nosso convite passava por tocar na chapelaria do Sr. Pedro - também conhecida por Chapelaria Confiança - mesmo no centro da cidade, na rua Direita. Ora, os “truques algarvios” de Tiago Saga conseguiram levar o veículo até à porta da chapelaria com um ou outro olhar mais incrédulo e alguns sorrisos de quem passava. Ali, habitualmente, não se vêem automóveis, mas a verdade é que não tardou para que os instrumentos estivessem dentro da loja, protegidos da chuva, prontos a cantar.

O interior da Chapelaria Confiança é apertado e cobre-se de caixas e chapéus até ao teto. É uma casa antiga e nota-se, mas também a forma como somos recebidos, com toda a amabilidade prestada, parece de outros tempos. O Felipe Bastos, que à noite estaria a tocar bateria, ali na loja entretinha-se a encontrar alternativas aos tambores. Enquanto outros afinavam, ele percebeu que o suporte metálico dos chapéus daria um excelente instrumento. Uma caixa de cartão ali ao lado também viria a ser útil. Enquanto lá fora chovia e uma ou outra voz ameaçava chamar a polícia para não ver carros naquela rua, cá dentro, de cabelo molhado e roupa encharcada, Tiago Saga tocava os primeiros acordes. Filmámos.

A música dos Time For T é bastante característica e a forma descontraída com que a tocam revela a experiência de vários anos na estrada. Se é verdade que o seu álbum de estreia, “Hoping Something Anything” foi apresentado o ano passado, também é verdade que já estão nestas aventuras desde 2013.

C​onheçam mais do seu trabalho em: www.timefortmusic.com.


01 março, 2018

Luís Severo

Simplifiquemos e digamos que Luís Severo chegou a Viseu com dois álbuns lançados, o mais recente com o seu próprio nome, o outro, "Cara d'Anjo", surgiu em 2015. No entanto, entre EP's, canções criadas espontaneamente e outras que, por uma razão ou por outra, passam anos na gaveta, as músicas deste cantautor são bem mais do que aquelas que arrumou em disco. Tudo isto importa dizer porque, desafiado pelo Musiquim, Luís Severo aceitou participar em tempo record e, melhor ainda, foi a essa tal gaveta de canções para nos trazer "Voltas". A bem da verdade este tema não é novo, mas a sua versão despida de outros instrumentos é única. Para além dela, ainda fomos brindados com "Ainda é Cedo" e "Lábios de Vinho", mas comecemos pelo princípio.

Fomos encontrar Severo a terminar o seu soundcheck no Carmo'81, onde iria tocar nessa noite. É uma tarde de sábado e à entrada disseram-nos que os bilhetes eram poucos, a lotação já ultrapassava a centena. Bons presságios. Quando o cantautor terminou ou seus ajustes sonoros brindou-nos com um sorriso largo, um aperto de mão e um pedido de desculpas desnecessário. "Podemos ir, estou à vossa disposição", disse.

Para ir, o nosso plano passava por entrar nas artérias mais antigas da cidade, foi o que fizemos. O percurso foi pequeno, mas a conversa com Luís Severo revelou-se estranhamente natural. A sua música já nos era familiar, é certo, mas o seu à vontade é envolvente. Ficámos a saber que tem família por perto, que mesmo à distância sentiu a dor sofrida pelos incêndios do último ano, que da música de Viseu conhece, antes de mais Galo Cant'às Duas e Moullinex. "Mas Moullinex já é do mundo", acrescentou.

Só parámos no topo de uma escadaria. Anoitecia e embora alguns candeeiros se acendessem, a luz teimava em escassear. Afinou-se a guitarra num instante, instalou-se o microfone e filmamos. Estes são os momentos que se contam por vídeos. Ainda assim, acrescentamos que foram momentos especiais estes que partilhámos. O trabalho de Luís Severo é de uma honestidade rara e foi isso que se refletiu nesta canções e depois no concerto no Carmo'81. A postura sem artifícios cativou o público que se deslocou para o ver. "Toca Nita", disse alguém no público. "Nita?" - retorquiu Severo "É das canções mais difíceis para mim. Os meus amigos dizem que é a minha canção de que menos gostam, então eu fui gostando cada vez menos. Mas é fixe ver que tu gostes! Assim fico mais contente. Vou cantar então." E cantou.

Essas e outras canções estão na sua página, encontrem-no lá.