23 maio, 2018

Marco Luz

Marco Luz quando sobe ao palco não canta, é a guitarra que faz toda a melodia. A sua formação clássica foi essencial para a destreza que demonstra com o instrumento, mas só uma sensibilidade única e vários anos de trabalho e exploração permitem que durante mais de uma hora Marco Luz esteja com a sua guitarra e tudo o resto se silencie para o escutar.

No entanto, em Viseu com o Musiquim o artista não foi encontrar um palco. Em vez disso fomos até à Rosilãs. O nome denuncia o conteúdo, uma loja de "telas e lãs, arranjos e franjas em tapetes de arraiolos, etc.". Fomos muito bem acolhidos pelo Sr. António e a hospitalidade revelou-se necessária. Se é verdade que Marco só usa um instrumento, também é verdade que à sua volta está uma panóplia larga de acessórios: uma mala com diversos pedais, uma mesa de mistura, colunas, microfones e cabos. Muitos cabos.

Nunca antes o Musiquim esperou tanto para escutar a primeira canção. Entre as ligações dos cabos testavam-se planos e conversava-se um pouco. Compraram-se bilhetes para o concerto dos irmãos Assad e aprendemos algumas coisas sobre as aplicações da lã. Um ou outro cliente, curioso com o aparato, preparava-se para começar um baile, mas efetivamente nunca chegou a haver dança. Houve música, sim, mas primeiro limaram-se as unhas. As unhas são muito importantes para um guitarrista. Ao longo dos anos já aprendi a distinguir um instrumentista mais aplicado de outro pelo brio com as suas mãos. As de Marco Luz são um bom exemplo.

E depois tocou-se? Sim, como aquecimento. O dia era de sol intermitente e estavamos todos confortáveis junto daquelas lãs. Marco Luz ensaiou alguns acordes e minutos depois estava pronto. Começou com o tema que lhe é familiar, assim como a quem o escuta há mais tempo. "Cores" é o nome do primeiro álbum e o single do mesmo, editado em 2015. Seguiu-se uma improvisação sem nome até chegarmos ao "Olival", o primeiro tema do seu segundo álbum "Mãos Pincel".

Tal como Eduardo, Mãos de Tesoura, Marco está habituado a criar arte com as suas e o resultado é hipnotizante. Podem conhecer mais do seu trabalho na página do guitarrista.


09 maio, 2018

Ellie Ford

Ellie Ford partilhou carro com os Time for T a caminho de Viseu. Para a noite estava planeado tocar algumas músicas com o grupo e abrir o concerto. Nós decidimos focar-nos no seu trabalho a solo.

A britânica tem conseguido fãs espalhados um pouco por toda a Europa, para isso têm contribuído algumas digressões, sobretudo em Inglaterra e Alemanha, já em Portugal, esta foi a sua primeira visita. Com o dia cinzento e chuvoso, quisemos abrigar-nos dos maus tratos do frio e encontrámos no Bazar Litos o refúgio perfeito. Esta loja de brinquedos habitua a Rua Direita há várias décadas e é feita da matéria dos sonhos de criança. Coberta de brinquedos, alguns deles já muito difíceis de encontrar habitualmente, é impossível não libertar um sorriso ao entrar naquele espaço e deixar que reminiscências da infância nos aqueçam o peito. Ellie sorriu, nós sorrimos também. Possivelmente pelos mesmos motivos, mas quem sabe.

Agasalhados, só havia que preparar o palco e os instrumentos. O palco não temos, basta um bom enquadramento, já instrumentos esses havia-os. A cantautora é conhecida pelos seus dotes na harpa, piano e guitarra, mas destes três só o último se traz facilmente às costas. Guitarra que seja, afinou-se durante alguns segundos, não muitos. A voz também pouco precisou para aquecer. Há quem descreva a voz de Ellie como sendo tão doce quanto mel. Talvez essas propriedades a mantenham protegida das intepéries. Mesmo nos murmúrios da canção por vir a sua voz trazia um brilho especial àquele momento. Estávamos prestes a começar. O resto conta-se em vídeo, mas nem tudo.

Depois das canções, ainda enfadados pelas cantigas e pela magia do que nos envolvia, chamou a nossa atenção um acordeão. Ora, não era nenhum acordeão profissional, era daqueles bem pequeninos, de brincar - muito coloridos-, mas que surpreendentemente soltavam várias notas a nosso comando e, tanto quanto o ouvido podia decifrar, afinadas! Trouxemo-lo connosco. Foi um presente do Musiquim que, tanto quanto sabemos, vai tendo o seu uso. Quem sabe não o escutaremos nunca canção futura. Por agora, as duas com que Ellie Ford nos deixou "My Bird Won't Sing" e "The Only One" fazem parte do seu seu álbum de estreia "The Other Sun". Mais sobre a artista na sua página oficial.


28 março, 2018

Time for T

​Foi a primeira vez que Tiago Saga, o coração dos Time for T, esteve em Viseu. A cidade não estava recetiva a visitantes e para o luso-britânico que cresceu no Algarve o frio e a chuva não foram de todo simpáticos.

No carro já velho e totalmente atulhado de instrumentos acompanhavam-no Joshua Tayler (baixista), Felipe Bastos (percussão) e Ellie Ford (sobre esta britânica falaremos noutro capítulo). Embora um bom companheiro de viagem, estacionar o automóvel foi um problema. É que o nosso convite passava por tocar na chapelaria do Sr. Pedro - também conhecida por Chapelaria Confiança - mesmo no centro da cidade, na rua Direita. Ora, os “truques algarvios” de Tiago Saga conseguiram levar o veículo até à porta da chapelaria com um ou outro olhar mais incrédulo e alguns sorrisos de quem passava. Ali, habitualmente, não se vêem automóveis, mas a verdade é que não tardou para que os instrumentos estivessem dentro da loja, protegidos da chuva, prontos a cantar.

O interior da Chapelaria Confiança é apertado e cobre-se de caixas e chapéus até ao teto. É uma casa antiga e nota-se, mas também a forma como somos recebidos, com toda a amabilidade prestada, parece de outros tempos. O Felipe Bastos, que à noite estaria a tocar bateria, ali na loja entretinha-se a encontrar alternativas aos tambores. Enquanto outros afinavam, ele percebeu que o suporte metálico dos chapéus daria um excelente instrumento. Uma caixa de cartão ali ao lado também viria a ser útil. Enquanto lá fora chovia e uma ou outra voz ameaçava chamar a polícia para não ver carros naquela rua, cá dentro, de cabelo molhado e roupa encharcada, Tiago Saga tocava os primeiros acordes. Filmámos.

A música dos Time For T é bastante característica e a forma descontraída com que a tocam revela a experiência de vários anos na estrada. Se é verdade que o seu álbum de estreia, “Hoping Something Anything” foi apresentado o ano passado, também é verdade que já estão nestas aventuras desde 2013.

C​onheçam mais do seu trabalho em: www.timefortmusic.com.


01 março, 2018

Luís Severo

Simplifiquemos e digamos que Luís Severo chegou a Viseu com dois álbuns lançados, o mais recente com o seu próprio nome, o outro, "Cara d'Anjo", surgiu em 2015. No entanto, entre EP's, canções criadas espontaneamente e outras que, por uma razão ou por outra, passam anos na gaveta, as músicas deste cantautor são bem mais do que aquelas que arrumou em disco. Tudo isto importa dizer porque, desafiado pelo Musiquim, Luís Severo aceitou participar em tempo record e, melhor ainda, foi a essa tal gaveta de canções para nos trazer "Voltas". A bem da verdade este tema não é novo, mas a sua versão despida de outros instrumentos é única. Para além dela, ainda fomos brindados com "Ainda é Cedo" e "Lábios de Vinho", mas comecemos pelo princípio.

Fomos encontrar Severo a terminar o seu soundcheck no Carmo'81, onde iria tocar nessa noite. É uma tarde de sábado e à entrada disseram-nos que os bilhetes eram poucos, a lotação já ultrapassava a centena. Bons presságios. Quando o cantautor terminou ou seus ajustes sonoros brindou-nos com um sorriso largo, um aperto de mão e um pedido de desculpas desnecessário. "Podemos ir, estou à vossa disposição", disse.

Para ir, o nosso plano passava por entrar nas artérias mais antigas da cidade, foi o que fizemos. O percurso foi pequeno, mas a conversa com Luís Severo revelou-se estranhamente natural. A sua música já nos era familiar, é certo, mas o seu à vontade é envolvente. Ficámos a saber que tem família por perto, que mesmo à distância sentiu a dor sofrida pelos incêndios do último ano, que da música de Viseu conhece, antes de mais Galo Cant'às Duas e Moullinex. "Mas Moullinex já é do mundo", acrescentou.

Só parámos no topo de uma escadaria. Anoitecia e embora alguns candeeiros se acendessem, a luz teimava em escassear. Afinou-se a guitarra num instante, instalou-se o microfone e filmamos. Estes são os momentos que se contam por vídeos. Ainda assim, acrescentamos que foram momentos especiais estes que partilhámos. O trabalho de Luís Severo é de uma honestidade rara e foi isso que se refletiu nesta canções e depois no concerto no Carmo'81. A postura sem artifícios cativou o público que se deslocou para o ver. "Toca Nita", disse alguém no público. "Nita?" - retorquiu Severo "É das canções mais difíceis para mim. Os meus amigos dizem que é a minha canção de que menos gostam, então eu fui gostando cada vez menos. Mas é fixe ver que tu gostes! Assim fico mais contente. Vou cantar então." E cantou.

Essas e outras canções estão na sua página, encontrem-no lá.


02 janeiro, 2017

Chão da Feira

O frio já se tornava habitual quando finalmente a 7 de Novembro de 2015 as Chão da Feira chegavam a Viseu. Este era um dia que estavamos a planear há mais de um ano, por isso a ansiedade era muita de ambos os lados. Ninguém adivinhava que para se divulgar o que se fez nessa manhã fosse preciso outro ano, mas já lá vamos.

Chão da Feira é um dueto formado pela Alina Sousa e Vanessa Borges. Nessa manhã chegavam a Viseu com um disco editado: "Das Tripas Coração", onde as suas vozes, flautas de bisel e guitarra têm o protagonismo. As melodias com raízes tradicionais captaram a nossa atenção e como o dueto nunca havia atuado nesta cidade, com o apoio do hotel Avenida, foi possível que estivessem presentes para dar um concerto. Esse foi maravilhoso, com o público a esgotar a sala e sem vontade de a abandonar, mesmo depois de todas as canções. No entanto, o registo tipo do Musiquim é outro e a pedido da Vanessa fomos à procura de um piano onde pudessem interpretar uma versão diferente de "Nas Nossas Mãos". Encontrámos esse piano, curiosamente, noutro Hotel. O Hotel Montebelo que nos acolheu de braços abertos. Ora, enquanto aguardávamos pelo fim de uma conferência viemos até à rua e aproveitámos a paisagem para interpretar "Lágrimas de Cebola". No fim são essas duas as canções que hoje publicamos.

Agora um enorme pedido de desculpas à Vanessa e Alina por este ano que se intrometeu entre o dia das gravações e a sua publicação. O Musiquim é um projeto feito de boa vontade e tempo livre, e embora boa vontade não escasseie, já o tempo livre tem sido matreiro. Encontrem mais do seu trabalho em www.chaoadafeira.pt


02 novembro, 2015

Concerto de Chão da Feira no Hotel Avenida


Em Agosto surgiam os Concertos no Hotel, uma iniciativa entre o projecto viseense Musiquim e o Hotel Avenida com o intuito de criar mais uma plataforma de dinamização cultural na cidade. Sempre com lotação esgotada, o Hotel recebeu Benjamim e depois Terraza. Pelo meio, os libaneses Postcards foram ao Museu Nacional Grão Vasco tocar para mais de uma centena de pessoas e agora, de regresso ao Hotel, é a vez das lisboetas Chão da Feira apresentarem o seu primeiro disco "Das Tripas Coração".

O banda nasceu há dez anos e tem como protagonistas as vozes de Alina Sousa e Vanessa Borges e os seus instrumentos: flautas de bisel e guitarra, respectivamente. Começando por registo tradicional, as suas canções foram evoluindo e hoje em cada uma delas coexistem a tradição e a modernidade, o orgânico e o mecânico, o sagrado e o profano. Misturam as raízes portuguesas com sonoridades de todo o mundo. Chão da Feira fala de flores, de armas, do amor, de mulheres e de homens, orgulha-se de espalhar mensagens envoltas pelas construções melódicas das suas vozes.

O concerto terá lugar no Hotel Avenida, dia 7 de Novembro, às 21h30.

A entrada é gratuita mas a lotação do espetáculo é limitada.
As reservas podem ser feitas para bomdia@musiquim.com.

28 outubro, 2015

Tio Rex

Embora novo, Miguel Reis tem já uma discografia invejável onde conta três EP's e dois discos, o último dos quais "Ensaio sobre a Harmonia" o trouxe a Viseu numa tour de apresentação. Acompanhado pela Marta Banza, o cantautor Folk setubalense forma um duo perfeito com a pianista. Que o diga quem esteve na Fnac de Viseu. Mesmo naquele espaço onde o ruído da loja e do bar normalmente impera sobre a música, as cantigas de Tio Rex fizeram-se ouvir mais altas. Direi melhor, o silêncio gerado deixou que as músicas se ouvissem perfeitamente. E quando assim é, é sempre especial.

Para o casal o Musiquim lançou o desafio de ir até ao Mercado 2 de Maio. Numa época em que se discute qual será o destino da obra de Siza Vieira e que alterações sofrerá, decidimos tirar proveito do que existe e tocar junto a uma poça de água. Esperemos nós que fosse apenas água.

Com o apoio do Velocafé, conseguimos ter electricidade para o teclado da Marta e cadeiras para um conforto que nem sempre tem lugar no Musiquim. O Miguel estava ansioso, não por causa da música ou das filmagens, mas porque o Benfica estava prestes a começar o dérbi contra o Sporting. Para os mais atentos, o relato pauta o ruído de fundo da canção por entre os carros, os pássaros e a restante vida da cidade. Ainda assim, mal as primeiras notas se fizeram ouvir, o ambiente que se criou era outro. A música é The Kingdom e faz parte do primeiro trabalho que Tio Rex publicou, em 2012. Agora com um arranjo diferente, mais lenta e mais amadurecida a canção existiu naquele momento como se fosse tudo o que importa. Foi esse o momento que registámos.

O que registámos, mas por respeito só escrevemos, foi o desgosto de Miguel ao perceber que o Benfica sofrera o primeiro golo. E depois outro. E depois mais outro, mas por essa altura já o futebol não tinha importância nenhuma.

A música de Tio Rex não fala de futebol, mas fala de emoções, e se quiserem ouvir um pouco mais, dirijam-se até ao seu bandcamp.


ou no Vimeo: The Kingdom

01 outubro, 2015

Postcards

Os Postcards conheceram-se à três anos, quando tentavam escapar de uma guerra civil e se cruzaram numa praia. Do momento atribulado, as músicas que deles surgiriam pouco tiveram a ver com aquele momento ou com as suas raízes. Viverem no Líbano foi apenas uma razão para sonhar com outros locais, a começar com uma casa no lago, que deu nome ao primeiro EP: Lakehouse.
A música declaradamente folk tem sido muito bem acolhida pela Europa fora e o quarteto já teve alguns momentos muito felizes, como abrir para a banda Beirut e subir por eles mesmo a palcos importantes. Quando surgiu a oportunidade de virem até Viseu, o Musiquim não pode desperdiçar.

Com uma enorme vontade, associámo-nos ao Museu Nacional Grão Vasco na organização do concerto. Lá teríamos o sítio ideal para a banda tocar e a parceria com a Visabeira garantia um tecto ao músicos para aquela noite. O resto seria suor nosso e de quem se dispusesse a ajudar. Um agradecimento especial à ACERT e ao Carlos Fernandes por disponibilizarem o material que nos faltava, à Ana Seia de Matos no apoio à organização, ao João Vaz Silva por ser louco, ou só boa pessoa, e permitir isto tudo.

A chegada da banda a Viseu fez-se com menos um elemento. Rany Bechara não conseguiu o seu visto a tempo de sair do país. No lugar dele veio o português André Galvão que acabou por fazer um excelente trabalho.

Já nos claustros do Museu a ameaça de chuva atrasou a intenções de fazer o som. Depois com a ameaça a efectivar-se em chuviscos tememos os pior. Correu-se à procura de plásticos. Aguardámos. Discutimos. Já não haveria tempo para jantar antes do concerto. Arriscámos continuar pelo exterior. Foi uma boa aposta.

A noite esteve agradável e todas as cadeiras ficaram ocupadas. O concerto ecoou durante uma hora naquele claustro e arrancou aplausos e ovações para Julia, Marwan e Pascal que ainda voltaram para uma última canção antes de esgotarem o repertório.

No final, o balanço não dia ter sido mais positivo. Marwan caminhava entusiasmado de um lado para o outro a arrumar parte do material até que me disse "Luís, this was the best concert we ever gave. Really. And he have played in amazing places, but this... this one was the best so far. Thank you". Julia, atrás dele, acenava em concordância. E nós cheios de orgulho.

No dia seguinte regressámos ao museu, já recuperados de uma noite longa. Era hora de regressar ao formato habitual do Musiquim e filmar algumas canções em acústico. Para isso, nenhum espaço era melhor do que aquele que já nos enchera de boas memórias: os claustros. Assim fizemos, primeiro com Where The Wild Ones, e depois com Walls.

Acompanhem o percurso dos Postcards na sua página oficial. Tenho a impressão que ainda ouviremos falar muito deles.

ou no Vimeo: Walls | Where The Wild Ones

29 setembro, 2015

Francisco Sales

Francisco, embora tenha crescido por perto (até completou a sua primeira formação musical em Viseu), tê-lo por estes lados é cada vez mais uma ocasião rara. Há quase três anos a viver em Inglaterra, tem construído carreira a tocar com os Incognito e Chaka Khan, o que por sua vez o levou a tocar em salas tão prestigiadas como a Blue Note em Tóquio e Ronnie Scott’s em Londres.

Por Portugal para matar saudades dos amigos, trouxe a música consigo e não desperdiçou a oportunidade de fazer uma digressão. A passagem por Viseu estendeu-se da sala de concertos até ao Carmo'81, um novo espaço cultural alternativo que embora se encontre fechado à segunda-feira, não hesitou em abrir portas para receber o guitarrista. Com uma boa disposição contagiante, Francisco Sales foi montado todo o material necessário - e ainda é algum! - para que pudesse tocar. Do nosso lado ajudámos com a montagem do PA, mas fomos sobretudo escutando com enquanto as várias histórias que o autor trazia consigo.

Foi com curiosidade que percebemos que os dois temas interpretados para o Musiquim não são de Valediction, o seu primeiro e bem sucedido álbum, mas sim novas obras que integrarão a sua próxima colectânea. E pelo que tivemos oportunidade de escutar e que agora partilhamos, Francisco Sales está a superar-se a sim mesmo. E quando assim é, só boas coisas podem acontecer.

Acompanhem mais de perto o trabalho do guitarrista no seu facebook oficial.


ou no Vimeo:Hungary

22 setembro, 2015

Concerto de Postcards no Museu N. Grão Vasco


A próxima segunda-feira (28 de Setembro) trará a Viseu uma banda do Líbano (Beirute), Os Postcards. O concerto terá lugar no Museu Nacional Grão Vasco, pelas 21h30, e continua a rúbrica de concertos que têm vindo a ser realizados pelo Musiquim no Hotel Avenida, nos mesmos moldes descontraídos e de qualidade. Agora com uma banda folk constítuida por 4 elementos, o público poderá assistir a um concerto ao ar livre num dos locais mais bonitos da cidade e deixar-se deslumbrar pela voz e ukelele de Julia. A​ guitarra de Marwan, o groove do baixo de Rany e a bateria de Pascal unidas pelas melodias doces também nos encherão de boas memórias.

Sobre os Postcards pode dizer-se que o seu projeto começou no verão de 2012, quando os músicos ​se cruzaram num acampamento enquanto escapavam dos confrontos nas ruas da capital. As suas influências passam por Fleet Foxes e The Beatles mas essencialmente tudo o que ouvem de folk.

O EP de estreia "Lakehouse" foi editado em Setembro de 2013 e recebeu críticas elogiosas. Durante o ano seguinte, tocaram em salas no Reino Unido (Londres, Brighton, Manchester, Cardiff) e abriram concertos para bandas como Beirut, The Royal Concept e The Wanton Bishops em grandes festivais de Beirute e outros pontos da Europa (Wilderness Festival, Byblos International Festival, Wickerpark). Atualmente estão em fase de promoção do segundo EP "What Lies So Still", lançado em Julho e que inclui o tema "Porto".

A entrada é gratuita mas a lotação do espetáculo é limitada.
Para assegurar lugar as reservas podem ser feitas para bomdia@musiquim.com.

23 agosto, 2015

Terraza

A vontade dos Terraza virem a Viseu já era longa. Não seria a primeira vez, no entanto. Há cerca de um ano, de passagem pela cidade, o duo foi apresentar a sua música a alguns bares. Mesmo assim, chegar, tocar uma canção e esperar uma reacção. Agendaram quatro concertos dessa maneira. Portanto o concerto no Hotel não seria uma novidade para Viseu, mas para os Terraza, tocar em Viseu num sítio onde uma sala enche apenas para os escutar seria novidade.

O duo chegou depois da hora de almoço para almoçar, o que fizemos rápido. Tínhamos alguns preparativos à nossa espera: som para o concerto no interior do hotel; som para a varanda; gravar alguns temas. Foi tudo isso que fizemos, com uma boa disposição tremenda o Mário e a Lúcia nunca deixavam de brincar com esta ou aquela situação, excepto para cantar. Quando cantam e tocam, os Terraza são para levar a sério. Com uma mistura incomum de fado, bossa nova, jazz e música tradicional portuguesa, o som distinto dos dois sobressaia logo nos primeiros acordes. A celeridade com que o som ficou no ponto certo não deu tempo para saborear mais esses momentos, mas não tardou a que fosse hora de gravar para o Musiquim.

O Mário parece estar sempre a ferver em ideias. Escolheu um canto apetecível dentro do hotel que seria o cenário para a primeira canção, "Gisela". Depois decidiu que não começaria sentado, viria antes da sala ao lado e só depois se juntava à Lúcia que estaria a pôr maquilhagem. A maquilhagem da Lúcia foi posta várias vezes nesse dia. Depois de "Gisela" era a vez "Lençóis", um tema calmo cujo o cenário foi o salão de refeições. Desta feita coube à Lúcia tornar mais realista o já real cenário e acrescentar duas chávenas de café à mesa. Como não havia café à vista improvisou-se com água e chocolate. Se a mistura fosse tão boa quanto a música, devia estar deliciosa.

Normalmente a aventura no Musiquim terminaria aqui, porém não íamos sequer a meio. A hora de jantar aproximava-se e nenhum de nós se coibiu de encher o estômago. Dali por um pouco os Terraza subiriam à varanda. O Mário insistiu uma última vez que era completamente seguro sentar-se na janela com a guitarra, a Lúcia disse uma última vez que nem pensar, não queria ficar sem ele. A discussão ficou-se por ali. Da varanda via-se o cruzamento a encher-se de gente. Encheu mais um pouco e estava na hora dos Terraza apresentarem duas das suas canções para as mais de sessenta pessoas que dali por uns minutos viriam encher completamente a sala. A última canção à varanda terminou da mesma maneira que a primeira no interior, uma bondosa salva de palmas. Já a última canção da noite teve direito a assobios - dos bons - aplausos infindáveis, vénias, sorrisos, autógrafos, enfim, foi uma experiência memorável.

Para explicar um pouco melhor, a Lúcia e o Mário, para lá de comporem as suas próprias canções e as interpretarem com largo talento, são actores de formação. O à vontade que a profissão lhes dá em palco faz com que entre cada canção partilhem a sua origem, mas não só. Partilham as histórias que as rodeiam, as experiências que de tão mal que correram só podem dar gargalhada, falam do gato que caiu do nono andar e sobreviveu, da experiência estranha de tocar em playback e muito mais. Entre cada história aumenta a empatia, daí que não se estranhe a ovação final por parte do público. Já por parte dos Terraza, talvez ainda embalados pelo calor do momento, disseram que aquele foi o melhor concerto que já alguma vez fizeram. Ficámos orgulhosos de poder fazer parte desse capítulo.

Da parte do Musiquim resta agradecer ao Hotel Avenida, que se tem mostrado um parceiro magnífico, e aos Terraza, por terem aceite o desafio. Ouça mais deste duo na sua página oficial.


ou no Vimeo: Gisela | Lençóis

12 agosto, 2015

Concerto de Terraza no Hotel Avenida, Viseu


Depois do sucesso do primeiro dos Concertos No Hotel, uma rubrica levada a cabo pelo Musiquim e o Hotel Avenida, já há nova banda confirmada. Tudo começou com Benjamim, que na passada semana, depois de esgotar os lugares disponíveis em quarenta e oito horas, deu um excelente concerto e uma memorável prestação à varanda.

Agora, no novo capítulo desta rubrica que tem como intuito dar um espaço acolhedor à música na cidade de Viseu, é a vez dos Terraza subirem ao palco, e à varanda.

Os Terraza são um duo formado pela voz de Ana Lúcia Magalhães e a guitarra de Mário Abel Costa. Juntos lançaram o EP "TRZ 122" que, com uma sonoridade que baila entre o fado, a bossa nova, a música popular e até o jazz, têm vindo a conquistar fãs por onde quer que passem. Alguns, mesmo sem saber, porventura conhecerão a voz de Ana Lúcia do concurso televisivo Got Talent Portugal onde a sua participação lhe valeu algum mediatismo.

Este concerto acontece na próxima terça-feira, 18 de Agosto, pelas 21h30. Primeiro com duas canções à varanda e depois, de forma mais acolhedora, no interior do Hotel Avenida.

A entrada é gratuita mas a lotação do espetáculo é limitada.
As reservas podem ser feitas para bomdia@musiquim.com.

10 agosto, 2015

Benjamim à varanda

Talvez a maioria ainda conheça Benjamim da altura em que terminava em N. Cantava em inglês, dava pelo nome de Walter Benjamin e foi ganhando um espaço especial no coração dos ouvintes ao lançar três trabalhos, todos eles bem recebidos.

Agora, depois de quatro anos em Inglaterra e há dois em Portugal, Luís Nunes abandonou o inglês para cantar na sua língua materna. Afinal é com ela que nos expressamos melhor quando falamos do nosso país. O novo álbum do Benjamim que já não é Walter, é precisamente disso que fala. Deste país. E que melhor forma de o apresentar que viajando por este pais, de norte a sul, em trinta e três dias tocando em cada um deles num sítio diferente? Foi isso que fez.

Ao vigésimo quinto dia de viagem ele, António Vasconcelos Dias que toca bateria e teclados nesta tour; Manuel San Payo, responsável pelo som e Gonçalo Pôla que faz o registo fotográfico e de vídeo, chegaram a Viseu na sua velhinha Volkswagen. Ou melhor, três deles. O Manuel já não cabia na carrinha e faz o acompanhamento no seu automóvel, da mesma maneira que cada ciclista tem o seu carro de apoio.

O Manuel é um bom rapaz. A sua boa disposição não se destaca dos restantes, é tudo boa gente, mas o seu espirito competitivo sim. Afinal foi ele a desafiar o Luís para uma corrida, logo a seguir ao lanche em plena avenida. “Até àquele sinal além”. Era a sinalética de uma passadeira. Ora o vocalista não descartou o desafio. Fincaram os pés no chão, puseram-se a postos e lá foram eles. Nem dez metros e já o cantautor ganhava vantagem. Cinquenta metros depois o Manuel deitava a mão a tentar empurrar o músico mas sem sucesso. Perdeu.

Só porque o Manuel perdeu um desafio a coisa não se ficou por aqui. Depois de jantar – parece até que se corre melhor depois das refeições – o técnico de som voltou a desafiar, mas desta feita o desafiado foi o baterista, António. O António não hesitou e em poucos segundos estava em posição de partida. O cenário era agora a Praça da República. O Manuel não queria repetir os erros da tarde e apertava os atacadores. A culpa da primeira derrota teve muito a ver com as sapatilhas. Apertou os atacadores durante mais dois minutos e quando finalmente começaram a correr nem vinte metros foram precisos para que uma sapatilha voasse. Era a do Manuel. Sem dúvida algo se passava com os seus atacadores.

Mais três minutos a apertar as atacas para que se retomasse a partida. Apertaram-se. Correram e o Manuel voltou a perder. Perdeu a partida mas não a boa disposição. Ainda bem, é que faltavam poucos minutos para o início do concerto e nada melhor que alguns sorrisos para espantar o nervosinho.

“É a primeira vez que vou tocar numa varanda”, disse Luís. “Já estive menos nervoso”. Olhou em redor, confirmou a afinação e avançou para a varanda do Hotel Avenida, a mesma de onde o general Humberto Delgado anunciara a sua candidatura a presidente da república. Lá em baixo meia centena de pessoas esperavam pacientemente para o ouvir. O concerto, antes da aconchegante sala no interior do hotel, começava naquela magnífica varanda. Tocou “O Quinito Foi Para a Guiné” e continuou com o single “Os Teus Passos” antes de convidar todos a subirem. Arrancou aplausos das duas vezes.

Já no interior do Hotel, que nos últimos meses tem feito uma aposta forte na cultura em Viseu, Benjamim deu início a um concerto hipnotizante. A plateia estava repleta com gente de todas as idades que se espalhavam pelo chão em almofadas e pelo varandim.

As canções de Benjamim foram uma viagem pelo seu Portugal, o nosso também e só podia terminar com um forte aplauso e a vontade que dias assim se repitam outras vezes.

Para acompanhar o trabalho do cantautor podem fazê-lo no seu facebook.


ou no Vimeo: Os Teus Passos

31 julho, 2015

Concerto de Benjamim no Hotel Avenida, Viseu



Numa digressão com um concerto por dia, durante trinta e três dias, Benjamim, o mais recente projeto do músico Luís Nunes, irá atravessar Portugal de norte a sul. A primeira etapa teve início na vila alentejana de Alvito a 14 de julho. A 7 de Agosto, sexta-feira, depois de muitas outras paragens percorridas numa velhinha mas fiel Volkswagen Golf 1996, o músico chega a Viseu para tocar no Hotel Avenida, pelas 21h30. Este concerto surge de uma parceria com o Musiquim, projeto que tem por hábito filmar músicos na rua, e o Hotel Avenida, edifício de traça única na cidade e um dos mais antigos hotéis de Viseu. Hoje, e cada vez mais, este Hotel têm-se apresentado como um espaço pronto a receber projetos inovadores e vanguardistas, catalisadores da atenção dos residentes, mas também do interesse de turistas e potenciais visitantes externos - recentemente com as conversas Serões no Hotel, o teatro da Companhia Limitada e agora com o primeiro Concerto no Hotel, está a surgir na cidade um local de referência cuja presença só tende a reforçar-se com os novos planos de obras profundas de qualificação, requalificação e ampliação.

O concerto é gratuito e a lotação é limitada, pelo que se recomenda fazer uma reserva para bomdia@musiquim.com.

Quanto à digressão de Benjamim, esta antecede o lançamento do seu novo (e agora primeiro) disco, intitulado "Auto-Rádio". No entanto o primeiro single deste trabalho já pode ser escutado na compilação dos Novos Talentos FNAC 2015. Sobre o escritor de canções que passou quatro anos radicado em Londres e voltou para Portugal em 2013, pode dizer-se que veio para escrever canções novas e revolucionar a sua maneira de olhar para o mundo. O resultado que traz a Viseu vai buscar tanta inspiração ao Duo Ouro Negro, à Lena d'Água, ao Chico, ao Zeca como ao Dylan que lhe encheu a juventude de sonhos de uma terra distante, aos Beatles, aos Beach Boys e a todas as coisas que o fizeram mexer. A acompanhar esta viagem, dobrando funções como co-piloto e documentarista, está o fotógrafo Gonçalo Pôla que tem a seu cargo o registo foto-videográfico de todo o percurso, atualizado num diário de estrada. Esta digressão conta ainda com o apoio da Antena 3.

12 janeiro, 2015

Bruno Pato

Há anos que Bruno Pato tem a oportunidade de viver da música tocando a composição de outros por todo o país. Recentemente, decidiu lançar-se às teias complexas da criação e escrever os seus próprios temas. O resultado foi publicado em Novembro de 2014 e trata-se de um longo EP de 7 canções intitulado "Um Velho Idiota".

Ansioso por mostrar de que matéria é feita a sua música, o cantautor disponibilizou-se a viajar de Aveiro até Viseu para que pudéssemos ter uma sessão com ele. A sua simpatia não nos deixou indiferentes e foi com muito gosto que fomos ao seu encontro no coração da cidade.

Lá nos encontrámos, mas a proximidade da hora de almoço encorajou-nos a encher os estômago antes de mergulharmos em gravações. Saciámo-nos.

Agora sim, era tempo de escutar o que Bruno Pato tinha para nós.

Descemos a Rua Direita para pararmos na papelaria Cami. Os donos não parecem impressionados com os trinta e sete anos de existência da casa, mas é louvável a sua resiliência em tempos de crise. Talvez a simpatia com que encararam o desafio de receber um músico entre os livros e a forma acolhedora como fomos recebidos tenha que ver com a persistência que demonstram.

Conversámos todos um pouco, trocaram-se piadas e antes que nos esquecessemos porque ali estávamos decidimos gravar. O tema chama-se "Mais Vale Tarde", e para conhecer o que mais este Bruno Pato criou, recomendamos uma visita à sua página oficial.


ou no Vimeo: Mais Vale Tarde

24 dezembro, 2014

a Jigsaw - 2.º Take

A amizade com os a Jigsaw começou ainda não havia Musiquim. Aliás, se hoje há Musiquim foi por eles terem sido os primeiros a responder afirmativamente à questão: "Querem vir tocar neste sítio estranho?". Cresceu depois a coragem de repetir a pergunta e hoje são mais de quarenta as bandas que se deixaram levar pelo desafio.

No entanto, com o João e o Jorri as coisas parecem ir sempre mais além. Em 2012, criaram uma música sobre o João Torto, figura do séc. XVI que saltou da torre da Sé com asas que o próprio construíra. Desta vez, aceitaram vir a Viseu participar nas celebrações d'O Dia Mais Curto, mostrando alguns videoclips, discutindo-os, e fechando a sessão, organizada nesta cidade pela Shortcutz Xpress Viseu (SXV), com um concerto. E assim aconteceu.

Como o evento era às quatro da tarde e a cidade, no último Domingo antes do Natal, se encheria de gente e actividades, achámos por bem descarregar os materiais para o concerto ainda antes de almoço. O Museu Grão Vasco acedeu ao desafio da organização e abriu as portas para nos receber. Quando chegámos, sem sono e com um dia que, não fosse o frio, mais parecia primavera, tínhamos à nossa espera uma sala despida de acessórios. Haviam as cadeiras empilhadas, alguns quadros, não fosse a sala de um museu, e nada mais. Descarregamos tudo em pouco tempo e fomos almoçar. O restaurante era uma delícia. Durante a refeição fomos tão generosamente servidos que parte da comida voltou connosco dentro de um tupperware. Já era hora de afinar os instrumentos.

De volta ao Museu Grão Vasco, as cadeiras tinham-se desempilhado graças ao SXV. Faltava tudo o resto. A Gira Sol Azul emprestou o monitor que daria amplificação à voz, embora fosse a peça mais pesada que ali estava, a sua montagem foi bastante simples. Os teclados, a auto-harpa, a melódica e os outros instrumentos encontraram o seu lugar rapidamente. Os a Jigsaw já tocam há muitos anos. Mais estranho foi reparar que, em mais do que uma ocasião, o João Rui se sentava a um canto da sala a tocar banjo. Imagino que o estivesse a afinar. Ou tocava para os fantasmas?

Entre preparar a sala e o início da sessão restava-nos meia hora. Seria pouco tempo para gravar algo, mas já trabalhámos com menos. Outro problema é que desta vez não queríamos o registo comum, afinal esta não seria a primeira vez da banda no Musiquim. Então optámos por fazer algo um pouco mais complexo. Chamá-mos-lhe 2.º Take, por ser a segunda vez que a banda está presente, por serem necessários pelo menos dois takes para a sua realização. Com isso em mente, subimos até uma das salas de exposição do Museu, no primeiro piso, e iniciámos as gravações. O tema escolhido foi "The Greatest Trick", do mais recente álbum "No True Magic". Os santos não tiveram vergonha e foram excelente modelos a enquadrar a melodia, mas nem os santos param o tempo e num instante a meia hora passou-se. Tínhamos descer para a sessão.

À nossa espera estava uma sala cheia. O frio não convencera ninguém a ficar em casa o que só tornou aquele espaço mais aconchegante. Três videoclips. Uma boa conversa. Um concerto ainda melhor. Quando terminou, já o orvalho caia lá fora. Todos saíram com um sorriso. Nós saímos com um sorriso no rosto e o material nas mãos. Despedimo-nos com um abraço e a promessa de nos voltarmos a ver, mas desse dia, para lá das memórias, fica este vídeo lá filmado.

Não custa lembrar, para conhecer mais do trabalho dos a Jigsaw, visitem a sua página oficial.


ou no Vimeo: The Greatest Trick

02 setembro, 2014

Lavoisier

Lavoisier é um projecto de Roberto e Patrícia que surgiu enquanto viviam em Berlim. As saudades de casa despertaram uma nova curiosidade sobre a música tradicional portuguesa. Depois, a vontade de a trabalhar veio naturalmente e dali por um pouco iam ocupado espaços pelo país partilhando a sua versão do que é cantar em português. Afinal, "nada se perde, tudo se transforma" - Lavoisier.
No entanto a música do dueto não se cinge a novas versões de cantigas populares, mas também a novas melodias para poemas nunca antes musicados. É o exemplo de "Viajar", um poema de Fernando Pessoa transformado canção e que tivemos oportunidade de registar.
O encontro com o casal foi muito simples para o Musiquim. Combinou-se que nos encontraríamos no dia seguinte ao concerto, pelo final da manhã - todos gostamos demasiado do nosso sono. Uns mais do que outros, não tivessem os músicos a dormir pela hora de chegada. Dez minutos. Nada que afectasse o resto da manhã.
Fomos acolhidos com sorrisos mútuos e só começámos a pensar em música uma meia de leite depois. Escolhemos ir até ao centro comercial Ecovil, era ali perto e o ambiente quase fantasmagórico da cave - construída de espaços para arrendar - pedia algo de bom. Aquando a chegada nem tudo era perfeito. O rádio tocava pelos corredores e não tínhamos propriamente licença para tocar ali. Felizmente esta é uma terra de gente boa e três telefonemas mais tarde conseguimos o aval dos donos e um rádio a menos. Dali para a frente a música seria outra e foi gravada para que não se esqueça.
Para saber mais sobre trabalho desta banda, visitem a sua página oficial: www.whoislavoisier.com.

ou no Vimeo: Maria Faia | Viajar

04 agosto, 2014

Golden Slumbers

Há algum tempo que o Musiquim não tem saído à rua, mas não lhe perdeu o gosto.
Com um verão intermitente é difícil prever o tempo, mas para sorte das irmãs o dia estava radiante. Céu azul e sol a brilhar. A brilhar. A brilhar tanto que para azar das irmãs o calor estava uns bons graus acima do confortável. Paciência, já tínhamos um sítio escolhido e não seria o súbito calor a desviar-nos da intenção.
Encontrámo-nos no parque da cidade, nós, um pouco atrasados, ainda saboreávamos o almoço sentados na relva, acompanhados por outros amigos que conhecemos nestas aventuras, enquanto as Golden Slumbers aproveitavam para tomar um café depois de uma longa viagem desde Lisboa. Estômagos saciados, mete-mo-nos a caminho: guitarra às costas, câmara na mão.
A vinda do duo a Viseu coincidiu com a 4.ª edição dos Jardins Efémeros, um festival que para lá da música preenche a cidade com exposições e instalações. Para nossa sorte, no largo que dá casa a um dos terminais do funicular, estava uma dessas peças, era ela o nosso sítio. Apelidava-se de Casulo e é uma criação do Atelier do Rossio, Cristina Baccari e Vanda Rodrigues. Sucintamente, é uma estrutura em metal revestida por 10 mil elementos de papel, esses criados com a intervenção de vários grupos institucionais do distrito de Viseu.
As irmãs Margarida e Catarina Falcão, não hesitaram em entrar, nem que fosse pela sombra, e ali se aconchegaram. Afinou-se a guitarra e as vozes. Por vezes o duo toca acompanhado por baixo e bateria, mas nesta visita a interpretação iria caber apenas às duas. Não pareceram de todo intimidadas. Montou-se o microfone. Estava tudo pronto para se ouvir algumas canções e até público havia, afinal alguns amigos mais atentos ouviram os planos e decidiram ir ao nosso encontro. Fizeram-no tão bem que até chegaram antes de nós.
Amigos à parte, dentro do Casulo o que se fez escutar foram as doces folk das irmãs Falcão. Essa história não se conta por palavras.
Entretanto, as Golden Slumbers, que já faziam parte da compilação dos Novos Talentos Fnac'14, lançaram o seu primeiro EP "I Found a Key", e podem ir ao seu encontro aqui.

ou no Vimeo: Gone with the Wind | Love

26 dezembro, 2013

Rogério Cardoso Pires

Conhecemos o trabalho de Rogério Cardoso Pires por acaso. No verão vimo-lo tocar numa capela. A sua presença era um dos pontos de um percurso maior por várias capelas de Viseu e esse percurso por sua vez fazia parte de outro percurso ainda maior que distribuía vários palcos por toda a cidade, eram os Palcos Livres. Nós escolhemos estar naquela capela e foi um encontro feliz. Muito embora a música na rua dificultasse o seu trabalho lá dentro, foi sempre encarado com humor e competência. A delicadeza das suas melodias e palavras criavam o resto do ambiente.
Descrevemos este encontro por ser o primeiro. Foi lá que nos apaixonámos pela sua música e não resistimos a fazer o convite. "O Musiquim é este projecto que...", mas era meia-noite, o cansaço pesava e no dia seguinte partia-se cedo. Não seria desta, mas fico prometido.
Passaram meses.
Era domingo, dia de almoço de família, quando recebemos um telefonema. Era o Rogério. Estava por Viseu e com tempo, se a nossa disponibilidade condissesse podíamos conversar um pouco e filmar. Inventámos disponibilidade e lá fomos, ou melhor, fui, que nesse dia a sorte de inventar tempo não sobrou para todos.
Encontrámo-nos no centro de uma cidade contagiada pelo espírito natalício. As ruas cheias agradeciam o bom tempo, estava céu azul e por alguns minutos foi difícil circular entre as barracas de artesanato tradicional, a exibição de carros antigos, o presépio e a música em mono. Tomámos um café. Conversámos um pouco sobre um pouco de tudo e saímos dali para ruas mais calmas. E foram ruas muito calmas aquelas que descobrimos a poucos minutos do frenesim do centro. Encantou-nos uma rua cujo o muro estava repleto de manchas brancas, certamente graffitis censurados, embora pudesse ser também algum artista modernista inspirado no trabalho do russo Malevich. De qualquer modo, era aquele o local para se fazer outro tipo de arte.
O Rogério tirou a guitarra, sentou-se e tocou alguns acordes. Tocou mais um pouco e disse, "pode ser aqui". Foi ali que durante uns minutos a música deste guitarrista escreveu um novo capítulo à Rua Conselheiro Sousa Macedo. São delicados os temas que nos trouxe. Muito embora passe grande parte da sua vida musical acompanhando outros artistas que respeita, como Zeca Medeiros e João Afonso, Rogério Cardoso Pires é por si só um artista de pleno direito. Já a sua humildade e perfeccionismo faz-no pensar duas vezes: "Podemos repetir este último tema? Acho que podia ficar melhor". Repetimos uma e outra vez sem que dissemos nada. Escutar aqueles melodias transporta-nos para outro sítio. Quando dava por isso já o plano de filmagem estava completamente desenquadrado. Depois começou a anoitecer.
O frio levou-nos de volta ao Conservatório de Música onde ensaiavam alguns dos seus amigos. Despedimo-nos com um até breve
Normalmente diríamos que para conhecer um pouco mais sobre o trabalho deste guitarrista licenciado em filosofia deveriam dirigir-se à sua página online, como Rogério Cardoso Pires não tem nenhuma, recomendamos ver estes vídeos em loop.

ou no Youtube: Ilha Terceira | Depois da Chuva

14 dezembro, 2013

José Valente

José Valente é violetista e o seu currículo é invejável. Nem sempre fazemos o trabalho de casa antes de estar com o músico, não muito a fundo pelo menos, agora ao encontrar o passado deste doutorando em Arte Contemporânea, que já estudou viola clássica em Áustria e jazz em Nova Iorque o nosso respeito é ainda maior. Dizemos isto porque José é de uma humildade e simpatia raras. Dois minutos de conversa e faz-nos sentir como se fossemos amigos de muitos anos, conversa-se sobre variadíssimos temas, a rua, a viola, a emigração, o sabão. Sim, sabão. Começando pelo início.
A visita de José Valente a Viseu deveria ter acontecido no passado dia 21 de Novembro. Felizmente para nós o concerto do trio "Incompleto", projecto que também fundou, foi adiado. Assim marcou-se uma nova data, 11 de Dezembro, esta bem mais cómoda para nós e que nos permitiu ir ao encontro do músico para o caçarmos. Foi essa a palavra que usámos ao bater à porta do camarim, "José? Desculpa estar a interromper, mas vínhamos aqui caçar-te para o Musiquim". Pediu vinte minutos e segundo o que contou mais tarde, parte deles foram passados com o resto do trio a fazer pouco da caça.
Vinte minutos depois subíamos a rua Direita em direcção à Só Sabão, a saboaria mais cultural de Viseu. Por lá acontecem regularmente exposições de ilustração, performances artísticas e até exibições de curtas-metragens, mas o sítio onde levaríamos José Valente é bem menos frequentado: a própria fábrica. Naquele dia, não estando em produção, poderíamos entrar e assim foi, de qualquer modo havia precauções obrigatórias: uma touca para o cabelo e dois plásticos para os pés. O músico pareceu achar a ideia divertida, tal como a nossa aparência. Antes disso houve tempo para algumas apresentações, à exposição, às publicações e criações e claro está, ao sabão.
Descemos à fábrica. O cheiro era intenso, mas a adaptação foi rápida. Quando saímos já pouco se notava. Escolhemos um pequeno canto junto de uns tachos e sem que se ligassem todas as luzes, tocou-se.
A viola de José Valente parecia valer por duas tal era a sua destreza. A música ecoou por vários minutos e mais nada se ouvia. Quem estava silenciou-se a escutar e até a rua parecia respeitar aquela melodia. Como tudo o que é bom acaba, também esta performance terminou. Subiram-se as escadas, tiraram-se as tocas e despedimo-nos. Não antes de levar um sabão no bolso. Obrigado, Vitor. E José lá comentou: "Na volta ainda ganham um cliente, imagina que isto é uma experiência sensacional, nunca mais me vou esquecer!".
Independentemente do sabão, o vídeo desta visita do José Valente não a deixará ser esquecida. "Improvisação + 'Manuel Cuco' (tradicional)" e "Shuffle" são os dois temas gravados e pela primeira vez registados em vídeo.
Para saber mais sobre o violetista, que também já fez bandas sonoras, visite-se a sua página oficial.